CURSO ESQUIZOANÁLISE E A CLÍNICA DA DIFERENÇA
- 3 de set. de 2022
- 7 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2022
Curso ministrado pelo professor Marcio Costa. Total de 10 aulas.
Aula 1. Produção social e desejante.
A psicologia como área da filosofia antiga até a modernidade e sua transformação como disciplina das ciências humanas na modernidade tardia; o lugar da esquizoanálise entre as abordagens da psicologia; o surgimento da esquizoanálise no encontro filosófico, clínico e político de Félix Guattari e Gilles Deleuze; a negatividade e a transcendência na psicanálise lacaniana e o caminho afirmativo e imanente que Deleuze e Guattari irão empreender a partir do pensamento de Lacan.
Aula 2. A esquizoanálise na psicologia: interfaces entre filosofia, psicologia social e psicanálise.
Na segunda aula do curso "Esquizoanálise e a clínica da diferença", buscamos situar a esquizoanálise na campo da psicologia nas interfaces entre a filosofia, a psicologia social e a psicanálise. Na filosofia, vemos as influências de Espinosa e Nietzsche na sua crítica ao sujeito da consciência moderna, valorizando a dimensão do corpo e dos afetos; na psicologia social, a desnaturalização do laço social fundado no sujeito soberano; na psicanálise, a importância da descoberta do desejo inconsciente e das pulsões em seus agenciamentos. Tratamos também do problema da falta em psicanálise a partir do Édipo, onde a representação reprime o processo de produção desejante; a reinterpretação ética da noção de falta por Espinosa segundo o modelo do corpo e dos maus encontros; a importância da contra-antropologia do xamã Yanomami Davi Kopenawa para pensarmos a esquizoanálise a partir de cosmologias não modernas.
Aula 3. As problemáticas de O Anti Édipo Capitalismo e Esquizofrenia.
Nesse vídeo, apresentamos os problemas centrais do primeiro volume da obra conjunta de Deleuze e Guattari, "capitalismo e esquizofrenia", denominado "O Anti-Édipo". Se o livro traz algumas problematizações importantes para o campo da filosofia, da psicanálise e da psicologia social, nessa aula focamos nos problemas para a filosofia e para a psicanálise. Na filosofia, tratamos sobre: a revolução de conceber o pensamento como desejo, inspirando-se em Espinosa, Nietzsche e na psicanálise; sobre a construção de uma Psicanálise materialista, que implica em pensar concetamente a materialidade da construção do desejo, inserido na produção sócio-histórica, inspirando-se em Marx e Bataille; sobre o falso problema do desejo edipiano, que toma um efeito histórico-social como causa de um desejo a-histórico. Na psicanálise, tratamos: sobre a transformação estrutural da psicanálise de Lacan empreendida por Deleuze e Guattari, a partir do registro do Real; a necessidade de uma raspagem do reducionsimo edipiano na psicanálise, para torná-la imanente às produções sociais; a análise do delírio, ou o romance (o acontecimento), como um movimento histórico-mundial e seus agenciamentos desejantes singulares; a esquizoanálise como uma psicanálise militante, que se torna uma peça essencial para o trabalho revolucionário, isto é, que transforma a sociedade em imanência com uma transformação do desejo.
Aula 4. As máquinas desejantes.
Nessa quarta aula do curso "Esquizoanálise e a clínica da diferença", começamos mostrando brevemente as problematizações de "O Anti-Édipo" para o campo da psicologia social, evidenciando a importância da cartografia do capitalismo, não apenas para problematizar o Édipo, mas também para compreender a imanência da produção do sujeitos e das sociedades. Avançando a discussão, aprofundamos a definição de que a esquizoanálise na clínica nasce de uma transformação estrutural da psicanálise de Lacan por meio do registro do Real. Para isso, analisamos brevemente alguns conceitos de obras antecedentes ao encontro de Deleuze e de Guattari que permitiram esse devir da psicanálise: "Em que se pode reconhecer o estruturalismo" (1967), "Diferença e repetição" (1968) e principalmente "Lógica do sentido" (1969) de Deleuze; mas tratamos principalmente do texto fundamental de Guattari "Máquina e estrutura" (1969). Guattari, aluno e analisante de Lacan, membro da Escola Freudiana de Paris, discute nesse texto que a estrutura simbólico-imaginária é movida por uma maquinaria Real histórico-social. É justamente a partir desse texto que ele reinterpretará o objeto a de Lacan e a pulsão freudiana como uma máquina, o que permitirá, posteriormente, a transformação da psicanálise pelo Real em "O Anti-Édipo" de 1972.
Aula 5. As pulsões e as sínteses do inconsciente.
Nessa quinta aula do curso "Esquizoanálise e a clínica da diferença" apresentamos a reinterpretação da psicanálise empreendida por Deleuze e Guattari pelo Real lacaniano, para ir além do Simbólico e do Imaginário. O Real como fluxos e intensidades remete à teoria pulsional, e, por isso, a esquizoanálise proposta em "O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia 1" propõe um cartografia do Real-pulsional por meio de sínteses, denominadas por eles de "sínteses do inconsciente": as máquinas desejantes, o corpo sem órgãos e a subjetivação. Desse modo, apresentamos a primeira síntese do inconsciente, as máquinas desejantes, mostrando de que maneira Deleuze e Guattari reinterpretam a pluralidade e complexidade da teoria pulsional de Freud e Lacan. Também mostramos que é nesse sentido, tanto psicanalítico quanto esquizoanalítico, que João Perci Schiavon evidencia que a pulsão é o principal conceito analítico, início e fim de uma análise, entidade de fronteira que indistigue dentro e fora, eu e outro, natureza e cultura, corpo e mente, passado e futuro, fazendo da pulsão - ou das máquinas desejantes - a imanência analítica.
Aula 6. O corpo sem órgão de Deleuze.
Nessa aula de hoje apresentamos um dos conceitos mais conhecidos e ao mesmo tempo dos mais desconhecidos da esquizoanálise: o corpo sem órgãos (CsO). Conceito desenvolvido por Deleuze inspirado na obra de Artaud, ele se conecta posteriormente com as máquinas desejantes de Guattari. Assim como as pulsões produzem, em sua atividade constante, o inconsciente, do mesmo modo as máquinas desejantes produzem um corpo sem órgãos, no qual se assentam. Inspirando-se em Espinosa para pensar um limite imanente para o desejo (diferente do Édipo na psicanálise institucionalizada, que instaura pela castração um limite transcendente), o corpo sem órgãos é uma reinterpretação da problemática do inconsciente e da pulsão de morte em psicanálise, ainda que negando a própria pulsão de morte como impulso de destruição e autodestruição. A vida inorgânica do corpo sem órgãos implica não a morte como o contrário da vida, mas uma desorganização de uma vida antiga (e adoecida) em favor de um processo de reinvenção de modos de desejar que deve ser praticado, como é próprio de um pensamento imanente que não separa os conceitos de uma prática de viver. O corpo sem órgãos é um inconsciente diferencial, que registra tudo, sobretudo o "não", a "morte" e o "tempo", onde, em sua intensidade igual a zero, produz a transformação ou o reinício de um processo desejante.
Aula 7. A subjetivação entre a revolução e a repressão.
Depois de tratarmos da primeira síntese do inconsciente, as máquinas desejantes, e apresentarmos a segunda síntese, o corpo sem órgãos, nessa aula de hoje tratamos da terceira síntese, a subjetivação. O sujeito não é origem e fonte de desejo, mas a exterioridade das relações que consome as etapas de um processo e neste se consuma. Em seguida, mostramos a transformação conceitual das três sínteses do inconsciente entre O Anti-Édipo e Mil Platôs. Por fim, falamos sobre as três linhas de vida, as linhas duras, as linhas moleculares (ou flexíveis, como as denominamos) e as linhas de fuga, e como a análise pode escutar ou acompanhar suas direções e intensidades, suas práticas e produções de inconsciente.
Aula 8. Psicanálise e esquizoanálise.
No vídeo de hoje temos a presença de dois convidados especiais, Mariana de Toledo, psicóloga e psicanalista, Doutora em Filosofia, com pós-doutorado em Teoria Psicanalítica e Filosofia e professora de Filosofia na UFF, e Paulo Domenech Oneto, economista e filósofo, Doutor em Filosofia e Professor de Comunicação na UFRJ. Nessa aula eles gentilmente partilharam conosco sua experiência clínica e teórica com uma Psicanálise que assume as críticas que a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari propuseram a ela. Assim como Deleuze faz uma crítica à filosofia para retirar desta os elementos ligados à representação e à moral, ele faz o mesmo com a Psicanálise. Após a crítica de Deleuze e Guattari, a Psicanálise se aproxima de uma clínica da diferença e de uma metapsicologia da imanência, onde a dimensão política, econômica, histórica e social emerge da prática psicanalítica. Esta então se repensa a partir dessa crítica impiedosa da esquizoanálise aos dogmas escolares da comunidade psicanalítica e seus conservadorismos clínicos e políticos, resgatando a dimensão revolucionária da psicanálise, que descobriu as máquinas desejantes, mas as reprimiu no falso problema edipiano.
Aula 9: Deleuze, Guattari e a clínica.
Na penúltima aula do nosso curso, temos a presença de mais uma convidada especial, Aline Sanches, psicóloga e psicanalista, Doutora em Filosofia e Psicanálise e professora de Psicologia na Universidade Estadual de Maringá. Nesse encontro, Aline traça o percurso da vida e obra de Deleuze e Guattari, dos acontecimentos do "maio de 1968" na França, disparadores do encontro entre os dois, da invenção da Esquizoanálise e da dimensão clínica e política desse trabalho em comum. Além disso, temos uma análise sobre o instinto de morte (ou o corpo sem órgãos, que não se confunde com o conceito psicanalítico de pulsão de morte) e sua importância para a clínica psicanalítica na contemporaneidade, defrontada com novas formas de subjetivação que nos incitam a invenções e experimentações.
Aula 10. Lacan, Deleuze e Guattari: como criar para a psicanálise um corpo sem órgãos.
Nessa última aula do curso "Esquizoanálise a clínica da diferença", recebemos a professora e psicanalista Lorena Guerini, doutoranda em Teoria Psicanalítica (UFRJ). Na sua aula, Lorena apresenta a história dos diálogos entre Lacan e Deleuze, sendo Guattari como um momento de ruptura dessa troca simbólica, para promover uma invenção de um outro inconsciente, real, corporal, intensivo e político para a psicanálise. Inspirado no conceito de limite imanente de Espinosa e no conceito de multiplicidades virtuais de Bergson, o corpo sem órgãos de Deleuze promove a reabertura do campo do inconsciente ao além do humano, o estranho, o real. Fazendo um passeio sobre os exemplos de Deleuze sobre as aproximações do limite do corpo sem órgãos, como na esquizofrenia (psicose), na histeria (neurose), no masoquismo (perversão) e nas drogas (experiências limítrofes, assim como a experiência mística), Lorena mostra como o corpo sem órgãos não rejeita a vida dos órgãos, mas a organização do mundo simbólico-imaginário, de um sócius, para promover a invenção singular de um corpo desejante, que relance os dados da vida para além de um horizonte representativo, organizado e mortificado.



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