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A MEDIDA DO TEMPO: INTUIÇÃO E INTELIGÊNCIA EM BERGSON

  • 28 de mar. de 2021
  • 6 min de leitura

Atualizado: 9 de nov. de 2022

A professora de filosofia Geovana da Paz Monteiro resgata uma importante discussão sobre o livro considerado o mais obscuro dos escritos por Henri Bergson.


Pergunta: Este tema exige um rigor na análise filosófica. Precisa, também, de uma familiaridade com o tema da Teoria da Relatividade e este texto [A Medida do Tempo: Intuição e Inteligência em Bergson de 2012, de Geovana da Paz Monteiro] foi capaz de pagar todos os tributos necessários não só no aspecto filosófico, mas também, que a mim interessou mais, na capacidade de resgatar a posição do Bergson [1859] na questão do tempo em relação a Teoria da Relatividade. Posição esta que vinha sendo sistematicamente menosprezada e que nos últimos 10 anos, em particular, tinha sido solenemente desprezada por um grande físico, o Alan Sokal [1955], que incluiu uma crítica virulenta à obra de Bergson no seu livro Imposturas Intelectuais [de 1998. Alan Sokal e Jean Bricmont]. Esta é uma argumentação muito consistente a favor da coerência interna do pensamento de Bergson, mas também demonstra que hoje, se dissermos que Bergson estava errado, ele estava errado na companhia dos melhores físicos da época.


O livro Duração e Simultaneidade de 1922 do filósofo francês Henri Bergson foi publicado no auge da divulgação da Teoria da Relatividade Restrita. Neste mesmo ano, Henri Bergson se encontra com [Albert] Einstein [1879] em Paris em uma sessão de divulgação da Teoria da Relatividade e eles têm a oportunidade de conversar, de discutir. Bergson faz algumas intervenções nesta palestra de Einstein e as intervenções, de modo geral, giram em torno da distinção entre o tempo da física, do matemático e do cálculo e o tempo da experiência de vida, que é a defesa do Bergson. Não que ele não compreenda a Teoria da Relatividade, mas o que ele queria mostrar é que esse tempo, ou que esses tempos que a Teoria da Relatividade revela, são tempos medidos, calculados e não tempos vividos, experimentados por uma consciência. Então, para Bergson, o tempo real é esse tempo da consciência vivida, o tempo da experiência. Nesse encontro, eles não conseguiram manter um diálogo muito profícuo, o diálogo não rendeu muito porque Einsten não compreendia a posição de Bergson e talvez ele não aceitava a posição de Bergson. Mas mesmo depois desse encontro Bergson decide publicar o livro Duração e Simultaneidade. E aí o livro sai com a interpretação dele. Interpretação bem particular da Teoria da Relatividade Restrita e, como foi destacado, o livro não foi bem aceito porque haveriam supostos equívocos na interpretação de Bergson da Teoria da Relatividade Restrita de Einsten. Essa interpretação, esses supostos equívocos não eram equívocos graves que não se justificassem uma vez que Bergson compreendeu muito bem a Teoria da Relatividade e isso fica claro na obra dele. Quando nós começamos a estudar, verificamos que não havia nenhum erro de interpretação, nenhum erro de cálculo, simplesmente a forma como ele interpretava os efeitos da Relatividade Restrita é que é uma forma diferente, ou seja, ele não aceitava que os tempos múltiplos fossem tempos reais porque para ele o tempo real é o tempo da experiência, o tempo da consciência, isso ele deixa muito claro no texto. Só para contextualizar a recepção da obra e o fato dessa obra ter ficado tanto tempo esquecida pelos estudiosos do pensamento de Bergson justamente porque seria um exemplo de um fracasso, seria a obra em que Bergson fracassou. Mesmo os intérpretes da obra de Bergson não se dedicaram ao estudo deste livro. Em vários encontros que eu participei falando sobre esse texto as questões que me vinham eram essas “Bergson errou, todo mundo sabe que Bergson errou” é um exemplo do fracasso, tanto que é o livro que nem é considerado uma obra de doutrina. Entre as obras de Bergson algumas são de doutrina, Duração e Simultaneidade está fora. Nesse estudo que nós fizemos a intenção era tentar resgatar um estudo aprofundado da obra mostrando que os equívocos de Bergson foram superestimados e que essa obra poderia figurar, sim, uma obra de doutrina uma vez que ela dá conta de uma série de Investigações, uma série de aprofundamentos do pensamento de Bergson, da própria filosofia dele. Ela não é um caso especial dentro do conjunto da obra do filósofo. O nosso esforço foi resgatar a leitura desse texto esquecido. Junto com Bergson, vários outros físicos também compartilharam dessa posição de que os efeitos da Teoria da Relatividade Restrita, sendo eles, a quebra da simultaneidade, a contração do espaço e a dilatação do tempo, eram efeitos meramente fictícios, como Bergson diz: fantasmáticos exemplos que não eram reais. Eram resultados de cálculos, mas que na prática, na experiência, eles não se efetivavam. Logo no início nós fizemos uma leitura desse texto do Alan Sokal que é o exemplo mais agressivo de ataque ao pensamento de Bergson. Só que o autor Alan Sokal se atém apenas a um elemento, a pequenos erros de interpretação com relação ao Paradoxo dos Gêmeos que foi exatamente nesse ponto que Bergson deveria ter interpretado com base na Teoria da Relatividade Geral e ele interpreta o paradoxo com base na Teoria da Relatividade Restrita, mas, outros físicos fizeram a mesma coisa.


A recepção de Duração e Simultaneidade no Brasil especificamente foi muito negativa também por causa dessas críticas. Nós constatamos que havia um exagero nessa interpretação. Com base nisso, nós verificamos que o texto Duração e Simultaneamente poderia ser lido da seguinte forma, ele poderia ser estudado a partir do que Bergson faz com toda obra dele: a distinção de filosofia e ciência. No pensamento de Bergson essa distinção é forte porque perpassa todas as obras dele. Bergson não é um filósofo, um metafísico que está estudando física sem conhecer, ele mostra que tem domínio daquilo que ele está tratando ali e que essa dimensão, essa distinção entre filosofia e ciência, faz parte do próprio método dele: mostrar o que é próprio da filosofia e o que é próprio da ciência. Então, entre a distinção o tempo qualitativo e tempo quantitativo tem a multiplicidade qualitativa e a multiplicidade quantitativa. No segundo capítulo nós reservamos para o estudo mais aprofundado da Teoria da Relatividade. Lá eu vou analisar um pouco do histórico da teoria e alguns passos que nós tivemos que dar para chegar na interpretação de Bergson. O próprio autor faz uma análise histórica dos primórdios da Teoria da Relatividade. Nós vamos analisar os efeitos da Relatividade Restrita que são esses que eu falei anteriormente: a quebra da simultaneidade, a contração do espaço e a dilatação do tempo. No terceiro capítulo, nos dedicamos à distinção fundamental na relação filosófica de Bergson que é entre intuição e inteligência. A intuição é um método dele, que é um método de apreensão direta que extrapola o nível conceitual o que seria, para ele, um nível intelectual. É um método de apreensão profunda do real e o real para ele é o tempo, é a duração, e essa duração só se apreende em uma experiência imediata. Então, o último capítulo foi reservado para essa discussão, a distinção entre intuição e inteligência. Bergson faz questão de mostrar, dentro da obra dele, que há uma confusão entre esses dois domínios no campo da filosofia e essa confusão resultou no que ele chama de espacialização do tempo. Essa espacialização do tempo vem desde os gregos, desde Zenão, para ele, a Teoria da Relatividade só é um exemplo, um cume, um ápice, de toda essa espacialização do tempo que já começa com Zenão. Não é nada muito extraordinário. Uma coisa que é importante deixar claro é o fato de que, em momento algum, Bergson desmerece a ciência, o esforço científico, ou ele não reconhece o valor que a ciência tem, que a física tem. Ele reconhece isso profundamente, porém, ele acredita que há uma confusão no campo da ciência e da filosofia e que o filósofo não deve agir como um cientista, não deve utilizar o método do cientista, por isso que ele precisa dissipar essa confusão. Aí nós chegamos à conclusão de que Bergson não poderia injustamente, classificado pelo texto de Alan sokal, ser classificado como filósofo que não entendeu nada de física e simplesmente usa aqueles conceitos para mostrar uma erudição. Ele é até um pouco bonzinho com Bergson com relação aos outros filósofos que ele, Alan Sokal, critica. A crítica que ele faz à Bergson nem é a mais severa, mas ele disse que esses equívocos se proliferaram com seguidores de Bergson como Merleau-Ponty, Deleuze e outros filósofos. A conclusão a que nós chegamos é que era uma interpretação injusta e que muito provavelmente não teve trabalho de ler o texto pois, se ele lesse, veria que o livro dá conta, sim, de explicar a Relatividade Restrita. O quê ele não aprofunda é na Relatividade Geral. Ele deixa claro que não vai fazer isso porque não tem domínio da matemática da Relatividade Geral, que é mais profunda.



 
 
 

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