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A SOCIEDADE DA EXPOSIÇÃO. BYUNG-CHUL HAN.

  • 4 de jun. de 2021
  • 3 min de leitura

Atualizado: 9 de nov. de 2022

Trecho do capítulo "A Sociedade da Exposição" que está no livro "A Sociedade da Transparência" de 2012 do filósofo Byung-Chul Han.



[...]

Na sociedade expositiva cada sujeito é seu próprio objeto-propaganda; tudo se mensura em seu valor expositivo. A sociedade exposta é uma sociedade pornográfica; tudo está voltado para fora, desvelado, despido, desnudo, exposto. O excesso de exposição transforma tudo em mercadoria que “está à mercê da corrosão imediata, sem qualquer mistério”[1]. A economia capitalista submete tudo à coação expositiva, é só a encenação expositiva que gera valor, deixando de lado todo e qualquer crescimento próprio das coisas. Ela não desaparece no escuro, mas na superiluminação: “consideradas do ponto de vista em geral, as coisas visíveis não acabam no escuro ou no silêncio, mas se volatilizam naquilo que é mais visível do que o mais visível: a obscenidade”[2].


O porno não aniquila apenas o eros, mas também o sexo. A exposição pornográfica não causa apenas uma alienação do prazer sexual, mas torna-o impossível; torna impossível viver o prazer. Assim, a sexualidade se dissolve na performance feminina do prazer e na visão de desempenho masculino; o prazer exposto, colocado sob holofotes, já não é prazer. A coação expositiva leva à alienação do próprio corpo, coisificado e transformado em objeto expositivo, que deve ser otimizado. Já não é possível morar nele, Sendo necessário e, então, expô-lo e, assim, explorá-lo. Exposição é exploração, e seu imperativo aniquila o próprio morar. Quando o próprio mundo se transforma em espaço de exposição, já não é possível o habitar, que cede lugar à propaganda, com o objeto de incrementar o capital da atenção do público. Habitar significa originariamente “estar satisfeito, estar em paz, permanecer onde se está”[3]. A permanente coação por exposição e por desempenho ameaça a paz, fazendo também desaparecer totalmente a coisa no sentido heideggeriano. Ela não é passível de exposição, pois está plena de valor cultual.


Obscena é a hipervisibilidade, a qual falta qualquer traço de negatividade do oculto, do inacessível e do mistério. Obscenos são também os canais rasos da hipercomunicação, libertos de toda e qualquer negatividade da alteridade. Obscena é coação de colocar tudo à mercê da comunicação ou da visibilidade. Obsceno é o pornográfico colocar corpo e alma sob foco da visão.


O valor expositivo depende sobretudo da bela aparência. Assim, a coação por exposição gera uma coação por beleza e por fitness; a "operação beleza" tem como objetivo maximizar o valor expositivo. Nesse sentido, os paradigmas atuais não transmitem qualquer valor interior, mas medidas exteriores, às quais se procura corresponder, mesmo que às vezes seja necessário lançar mão de recursos violentos. O imperativo expositivo leva a uma absolutização do visível e do exterior. O invisível não existe, pois não possui valor expositivo algum, não chama a atenção.


A coação por exposição explora o visível. A seu modo, a superfície brilhante é transparente, não tendo necessidade de sofrer qualquer outro questionamento e não possuindo estrutura hermenêutica profunda. Também a face é um rosto que se tornou transparente, que anela pela otimização do valor expositivo. A coação por exposição nos rouba, em última instância, nossa própria face; já não é possível ser sua própria face. Desse modo, a absolutização do valor expositivo se expressa como tirania da visibilidade. O problemático não é o aumento das imagens em si, mas a coação icônica para tornar-se imagem. Tudo deve tornar-se visível; O imperativo da transparência coloca em suspeita tudo o que não se submete à visibilidade. E é nisso que está seu poder e suas violência.

Hoje, a comunicação visual se realiza como contágio, ab-reação ou reflexo. Falta-lhe qualquer reflexão estética. Sua estetização é, em última instância, anestésica. Por exemplo, para o julgamento do gostar - I like (eu gosto) - não se faz necessário qualquer consideração mais vagarosa. As imagens preenchidas pelo valor expositivo não demonstram qualquer complexidade; são univocamente claras, i. é, pornográficas. Falta-lhes qualquer tipo de fragilidade que pudesse desencadear uma reflexão, um reconsiderar, um repensar. A complexidade retarda a velocidade da comunicação, e a hipercomunicação anestésica, para acelerar-se, reduz a complexidade. Ela é essencialmente mais rápida do que a comunicação sensorial; os sentidos são morosos, sendo um empecilho para o circuito veloz da informação e da comunicação. Assim, a transparência caminha passo a passo com o vazio de sentido.

[...]




[1] BAUDRILLARD, J. Die fatalen Strantegien. Op. cit., p. 71.

[2] Op. cit., p. 12.

[3] HEIDEGGER, M. Vorträge und Aufsätze. Pfullingen, 1954, p. 149.


 
 
 

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