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ALTERAÇÃO PERCEPTIVA DOS DROGADOS E NÃO DROGADOS.

  • 8 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Trecho extraído do artigo "Subjetividades Drogadas" de Antonio Lancetti.


Em “Duas Questões”, Deleuze nos entregou ideias luminosas para entender esses fenômenos. Citando Phil Glass, ele disse que as drogas afetam a percepção dos drogados e dos não drogados.


Outro conceito precioso, presente nesse pequeno grande texto, é o de conjunto-droga, que compreende produção, distribuição, circulação de dinheiro, repressão, terapias, leis e, fundamentalmente, mídia, e a recusa a qualquer especificidade única a respeito das drogas.


A terceira ideia presente em “Duas Questões” é a de que as drogas produzem novas conexões, que os drogados fabricam suas próprias linhas de fuga, mas que essas linhas se tornam suicidárias quando são rebatidas sobre esse mesmo fluxo: minha dose, meu papel, minha pedra...


As zonas de uso, como a Cracolândia paulistana, são territórios democráticos, pois qualquer um pode fazer parte sem qualquer tipo de discriminação; todavia, nessas zonas, eles roubam uns aos outros, se traem e sua sociabilidade é intermediada pela presença ou não da substância organizadora de suas vidas. Eles produzem horror, fascinação e solidariedade, e vários tipos de agressão, além da policial. Pouco tempo atrás, um agente de saúde levou um usuário, agredido de madrugada por um skinhead, a um centro de saúde. Depois de retirar o sangue coagulado de seu parietal apareceu uma cruz suástica... Há grupos que se relacionam por meio de contato físico, como o grupo independente, denominado Aquele Abraço, que percorre durante as noites as ruas da Cracolândia abraçando as pessoas que lá habitam.


A outra ideia de Deleuze da qual nos lembramos, é que o verdadeiro toxicômano, como demonstrou Gregory Bateson, é o desintoxicado perpétuo. O drogado é aquele que bebe, cheira ou fuma porque essa é a prova efetiva de que pode parar.


Não por acaso, Deleuze se inspirou em Bouroughs para formular a ideia de sociedade de controle. Assim como o capitalismo funciona por produção de falta, a subjetividade drogada é um mergulho no consumo pelo consumo da droga pela droga, subjetividade organizada em ritornelos mortíferos movidos pela falta.


Em recente conversa com usuários da Cracolândia, um dos líderes afirmou: “nós não precisamos de nada porque nós temos tudo, nós temos a pedra, só queremos do poder público uma pia, uma privada e um chuveiro para tomar banho...”


Diz Deleuze: “Narcisismo, autoritarismos dos drogados, chantagem e veneno: eles se unem aos neuróticos, em seus empreendimentos de enfadar o mundo, de espalhar seu contágio e de impor seu caso”.


Mas assim como os drogados, que nos enfadam impondo seu caso, os congressistas – que clamam por aumento da repressão, das penas e das internações forçadas, clamando por vingança contra os adolescentes que cometem crimes cruéis; e a mídia – que espalha o pânico da epidemia, como se ela não fosse mais do que aumento do consumo, uma peste que pode atingir qualquer um – se unem também aos neuróticos e drogados para enfadar a política e a democracia com seus empreendimentos de contrafissura.

 
 
 

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