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O INCONSCIENTE-RUA

  • 14 de mar. de 2025
  • 8 min de leitura

Thales Trevizani.


Transcrição de uma live realizada em 2022.


Primeiramente, gostaria de agradecer à Cristine pelo convite e dizer que a escolha do tema foi bastante interessante. Diante do convite, a primeira pergunta que me fiz foi: "Sobre o que falar?" Ou melhor: "Com quem falar?" Melhor do que falar sobre é falar com. Nesse sentido, me desafiei a falar sobre algo que não domino. No prólogo do livro Diferença e Repetição, Deleuze, referindo-se ao ato de escrever um livro, diz que é preciso estar sempre no limite do não saber. Diante disso, a proposta de hoje é colocar o inconsciente para funcionar por meio de abstrações. Adianto que este é um tema muito complexo; a princípio, pode parecer intransponível em termos de compreensão. No entanto, é importante o exercício de absorver o que se pode, pegando para si o que cabe, o que tem utilidade. Uma aula não precisa ser compreendida em sua totalidade.


Escolho, como entrada, dois textos: o primeiro, A Lógica do Sentido, do filósofo francês Gilles Deleuze, mais especificamente a vigésima sétima série, que trata da oralidade, e o conceito de "objetos parciais" da psicanalista austríaca Melanie Klein, que aborda essa questão, entre outros textos, no livro Inveja, Gratidão e Outros Trabalhos.


Para iniciar, é pertinente abordar rapidamente a ideia de objetos parciais na teoria kleiniana, principalmente porque este tema também aparece em Deleuze, sob a forma de crítica, mas também de deslocamento e composição, como o autor faz em diversos trabalhos.


Os objetos parciais, segundo Melanie Klein, seriam as primeiras formas com que a criança, logo após a vida intrauterina, se relaciona com o mundo. O contato com o seio materno seria o meio pelo qual a criança se relaciona com o externo a ela. Deleuze, por sua vez, também ressalta que acontecimentos e trajetos são importantes para pensar as formações do inconsciente da criança, não no sentido familista, mas em tudo o que engloba as experiências.


Essa posição é chamada por Melanie Klein de "esquizo-paranoide". É interessante mencionar que a autora escolhe a palavra "posição", diferentemente de Freud, que fala em fases. A ideia principal é que, para Klein, há uma certa dinâmica entre as posições e não uma passagem de uma fase a outra, como uma evolução.


A primeira relação que a criança tem com o mundo é de forma objetal, por meio do seio materno. Portanto, esse seio, quando alimenta a criança, é gratificado. No entanto, esse mesmo seio, quando não está lá para alimentá-la, frustra. Com isso, a criança passa a ter uma relação de amor e ódio direcionados a esse mesmo seio. Gratificação e frustração são dois conceitos importantes para Melanie Klein.


Segundo Klein, existem, entre outros, dois mecanismos de defesa fundamentais para a criança: projeção e introjeção. Na projeção, a criança projeta o seio mau para fora, ou seja, o seio faltante, o que não está disponível naquele momento. Melanie Klein fala em destruir esse objeto. Em outro momento, ela introjeta o seio bom, que a satisfaz. Haveria, então, uma dinâmica entre esses objetos, que, na posição esquizo-paranoide, ainda estão separados da criança.


Na posição depressiva, a criança começa a perceber que aquele objeto que ora odiou é o mesmo que a satisfaz. Nesse momento, ela engendra um sentimento de culpa por essa ambiguidade, pois começa a integrar esses dois objetos e não se vê mais separada deles.


Nesse sentido, para Melanie Klein, esse objeto é colocado como referência ou idealização e, a partir disso, permitiria a constituição do ego e do superego. É como se fundasse ali um campo de proteção do mundo externo, de tudo o que vem de fora e pode atacar. Já Deleuze afirma que esse objeto idealizado estaria em uma “profundidade vazia”, uma vez que eles não se encontram.


Agora, voltando ao convite para a abstração, aqui é Deleuze falando diretamente com a psicanalista austríaca. Para Deleuze, haveria uma profundidade plena, ou o que ele chama de "corpo sem órgãos", onde esses objetos estariam fazendo conexões aleatórias. Também haveria uma dinâmica nesse sentido: os objetos parciais, para Deleuze, não são nem bons nem maus; vai depender de como eles se conectam nesse corpo sem órgãos, ou nessa profundidade plena. Ou seja, a maneira como os objetos se relacionam é que determina a dinâmica, não o objeto em si, que é bom ou mau. Nesse sentido, o que Deleuze nos convoca a pensar é: como, se o ego e o superego ainda não estão constituídos, podemos afirmar que a criança está integrada à mãe ou ao objeto seio? Se a criança não tem um ego formado, ela não está apegada ao seio, mas ao mundo, investindo nos acontecimentos ou no conjunto de relações que atravessam sua experiência.


Portanto, não existem objetos bons nem maus, mas objetos parciais que se conectam a um corpo sem órgãos, reunindo-se de maneira disjuntiva. Ou seja, eles não se totalizam. Não integram nem unificam esse objeto para que ele se manifeste na superfície. Os conceitos de superfície e profundidade que Deleuze trabalha não serão nosso foco aqui, então vou pular essa parte.


O importante para a gente é pensar que, se a criança introjeta o objeto bom e projeta o objeto mau, ou destrói, é necessário questionar: o que garante que parte do objeto mau não possa ser introjetado ou que parte do objeto bom não possa ser projetado? Esse é um questionamento pertinente para Deleuze.


Para ele, a integração do ego não precisa ocorrer com o objeto idealizado, como o seio materno. A conexão com essa profundidade plena, o corpo sem órgãos, já daria sentido à existência da criança. Por essa dinâmica ser esquizofrênica, ela produz existência e isso nada tem a ver com a estrutura psíquica do psicótico. Hoje não vou abordar isso, mas não é nesse sentido que Deleuze entende a psicose.


O superego, por sua vez, se formaria junto a essa dinâmica dos objetos parciais, permitindo a proteção e a não destruição desses objetos, avaliando de maneira prudente, como uma instância ética em uma produção conjunta. Nesse sentido, o que Deleuze nos diz é que a formação do superego se constitui também a partir do objeto mau, não sendo necessário o objeto bom como referência.


Para Melanie Klein, essa dinâmica dos objetos parciais constitui um plano familiar de encontros. A criança teria um sentimento de reparação diante da destruição do seio materno e um sentimento de culpa por ter odiado o seio materno. Esse ódio seria posteriormente transferido para o corpo da mãe. Com isso, entraria a figura do pai como o objeto de ruptura entre o corpo da criança e o corpo da mãe. O pai teria essa função, ou seja, um outro investimento libidinal da criança, que agora não está mais no seio. Esse terceiro elemento configuraria o complexo de Édipo. Não vou entrar nessa questão, mas é interessante quando isso é aplicado a casos clínicos.


Um exemplo disso é o caso de Richard, um garoto em acompanhamento com Melanie Klein. Ele chegou à clínica com sentimentos persecutórios, acreditando que a qualquer momento a guerra o mataria, que uma bomba cairia em sua casa e mataria seus pais e irmãos. Richard apontava lugares no mapa, dizendo que Hitler invadiria seu território. A interpretação de Melanie Klein foi de que Hitler representava o pai, com seu falo destruidor, invadindo o corpo da mãe. Quando Richard não aceitou essa interpretação, começou a falar sobre cores e intensidades. Melanie Klein então redirecionou a interpretação para a questão familiar, dizendo que a cor vermelha que ele mencionara representava a mãe. Além disso, quando o garoto descreveu a imagem de um polvo sendo devorado por uma planta marinha, Melanie Klein interpretou que os tentáculos simbolizavam o falo do pai, em uma posição agressiva em relação à mãe.


No entanto, para Deleuze, mesmo na posição esquizo-paranoide, a criança já está em um movimento de indiferenciação com o mundo, uma vez que ela não se separa dele. Se a criança não desenvolveu esse “eu”, como pode se dizer que ela está fixada? Nesse sentido, a criança não é a sua mãe, o seio ou o pai, mas o próprio mundo em processo de indiferenciação. Ou seja, a instância do pai, que introduz a criança no mundo, para Deleuze, já não existe como uma instância paterna. Ele a vê como impessoal. Para Deleuze, o inconsciente não está fixado em determinado corpo, forma ou identidade. Portanto, não é a figura do pai que organiza.


Nesse sentido, a família não seria o único campo de investimento do inconsciente, uma vez que essas conexões em profundidade seriam conexões rizomáticas. Essas conexões não teriam ponto de partida, ponto de chegada ou trajeto definido. Elas não são determinadas.


No livro Crítica e Clínica, Deleuze pensa o mecanismo psíquico como um mapeamento de trajetos. A criança seria formada em uma dinâmica que envolve sua singularidade e a subjetividade do meio em que vive. Existiria, então, um entremeio entre a singularidade da criança e a subjetividade do meio. O meio, as ruas, os animais, os cheiros têm sua própria subjetividade, em composição com a subjetividade da criança. Ou seja, não é papai e mamãe; por isso, eu comentei que as crianças dizem "eu também sou a rua". Esse mapa seria, então, o percurso junto ao percorrido.


Já caminhando para o final, gostaria de fazer uma leitura de um trecho de Crítica e Clínica, porque é sempre bom ouvir as palavras dos autores. Os trechos estão nas página 73 e 74 do livro Crítica e Clínica da editora 34. 1997:


"Os próprios pais são um meio que a criança percorre, com suas qualidades e potências, e cujo mapa ela traça. Eles só tomam a forma pessoal e parental como representantes de um meio num outro meio. Mas é errado pensar que a criança primeiro esteja limitada aos seus pais e só chegue aos meios depois, por extensão ou derivação. O pai e a mãe não são as coordenadas de tudo o que o inconsciente investe. Não existe momento algum em que a criança já não esteja mergulhada num meio atual que ela percorre, em que os pais, como pessoas, só desempenham a função de abridores ou fechadores de portas, guardas de limiares, conectores ou desconectores de zonas. Os pais estão sempre em posição num mundo que não deriva deles. Mesmo no caso do bebê, os pais se definem em relação a um continente-cama como agentes nos percursos da criança."


Para Deleuze, o inconsciente não seria um depósito de memória, como um museu ou um memorial de acontecimentos, para onde a criança sempre retorna, uma eterna reparação parental que tenta resolver o passado, ou a busca por um paraíso faltante que nunca será alcançado. É a tal questão do desejo como falta. O mais interessante para Deleuze não é perguntar o que é o inconsciente, mas sim pensar em seu funcionamento, em sua dinâmica, nos mapas e nos deslocamentos dos trajetos da libido, nessa constelação afetiva.


Para finalizar, farei uma última leitura, em que Deleuze dialoga diretamente com Freud sobre o caso do pequeno Hans:


"Seria abusivo ver, como Freud, uma simples derivação do pai-mãe: como se a 'visão' de rua, frequente na época — um cavalo cai, é chicoteado, debate-se — não fosse capaz de afetar diretamente a libido e devesse evocar uma cena de amor entre os pais... A identificação do cavalo com o pai beira o grotesco e implica um desconhecimento de todas as relações do inconsciente com as forças animais. E assim como o mapa dos movimentos e trajetos já não era uma derivação ou uma extensão do pai-mãe, o mapa das forças ou intensidades tampouco é uma derivação do corpo, uma extensão de uma imagem prévia, um suplemento ou um depois."

[...]

"Pelo contrário, é o mapa de intensidade que distribui os afetos, cuja ligação e valência constituem a cada vez a imagem do corpo, imagem sempre remanejável ou transformável em função das constelações afetivas que a determinam."


Bom, era isso que eu gostaria de trazer para vocês. Espero que, de alguma forma, isso os afete. As palavras são uma tentativa de fazer um uso afetivo da linguagem e, se não conseguir, a gente grita, berra, faz alguma outra coisa para afetar.


 
 
 

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