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O TEMPO ESPACIALIZADO E O TEMPO COMO DURAÇÃO

  • 27 de mai. de 2021
  • 5 min de leitura

Atualizado: 9 de nov. de 2022

O Professor Cristiano Barroso discorre sobre o tema do tempo na filosofia Bergsoniana.


O objetivo difundo da filosofia de Bergson é a defesa da criatividade e da irredutibilidade da consciência ou o espírito contra toda tentativa reducionista de matriz positivista. Porque a gente vê que ali o positivismo estava no auge e eles acabavam fazendo um reducionismo de tudo, do ser humano a uma matriz e isso restringia o pouco conhecimento do próprio ser humano. A defesa do espírito elaborada por Bergson adquiri uma peculiaridade porque por ele, ele vai tentar entender plenamente a vida concreta da consciência e, apesar de ele buscar na ciência os resultados, ele não vai minimizar em absoluto a presença do corpo e a existência do universo material. Para Bergson, as coisas são diferentes, a consciência ou a vida espiritual é irredutível a matéria. Ou seja, você não pode pensar na matéria e o espírito como se fosse uma coisa só. Ele se deu conta de que o positivismo não manteve em absoluto sua promessa de fidelidade aos fatos, como por exemplo o tratamento da ideia do tempo, do problema do tempo. Segundo Bergson, o tempo da experiência concreta escapa a mecânica. Para a mecânica, é uma série de instantes, um ao lado do outro como a gente vê nas posições sucessivas nos ponteiros dos relógios. Por isso o tempo da mecânica, é um tempo espacializado. Nesse sentido, medir o tempo significa comprovar que o movimento de um certo objeto em um determinado espaço coincide com o movimento dos ponteiros dentro daquele espaço que é o quadrante do relógio. Então é como se você dissesse assim "nós podemos medir o tempo fisicamente, espacialmente". Mas, além de espacializado, o tempo da mecânica, é um tempo reversível. Por quê? Porque nós podemos voltar atrás e reproduzir infinitas vezes o mesmo procedimento. Ou seja, na mecânica você pode fazer a mesma coisa várias vezes, mas, o tempo mesmo, ele não volta. Para a mecânica, todo momento é externo ao outro e é igual ao outro, um instante vem depois de outro e não há um instante diferente do outro, mais intenso ou mais importante que o outro. Essas características do tempo da mecânica, elas não conseguem dar conta do tempo da experiência concreta. Se a espacialidade é a característica das coisas, a duração é a característica da consciência. Ele quer, não trazer uma visão reducionista, a consciência capta imediatamente o tempo como duração. O que quer dizer duração? Quer dizer que o eu vive o presente com a memória do passado e antecipação do futuro. Não é sempre assim? A gente não vive o presente sempre com a memória do passo e com a antecipação do futuro. E o que é o presente afinal? Santo Agostinho já se perguntava lá atrás na idade média. Fora da consciência o passado não existe mais e o futuro ainda não existe. Passado e futuro só podem viver em uma consciência que os liga no presente, ou seja, a duração vivida não é o tempo espacializado da mecânica porque senão você não teria como mensurar o que é o presente, por exemplo. Como você mede o presente? O tempo entre o futuro e o passado é tão rápido que você não saberia dizer qual é o presente. O tempo espacializado ele é quantitativo e mensurável, cristalizado em uma série de momentos externos uns aos outros. Funciona bem para as finalidades práticas da ciência e vida, de uma certa forma e tem como função construir teorias úteis e previsões eficazes para controlar situações que, de vez em quando devem ser confrontadas. Nesse sentido, Bergson retoma a doutrina da economia da ciência pelos empiriocriticistas, ou seja, você tem que pensar qual é a utilidade desse momento de você medir o tempo, se é que é possível medi-lo. Mas, ele vai perceber nas ciências da natureza e seus métodos, uma total incapacidade e inadequação para a análise dos dados da consciência. Para Bergson, a realidade representa aspectos diversos, que, se a gente quiser permanecer fiéis a experiencia, a gente deve estudá-los como um método próprio e aí, que em sua opinião, o positivismo vai falhar. Porque, como estou falando, ele absorve o positivismo em certo sentido, o critério do rigor da ciência e tal. Mas na concepção dele o positivismo falha de que a natureza dos fatos é única e que ele pretende julgar dos todos fatos com um mesmo método. Bergson liga a duração, como característica fundamental da consciência sua defesa da liberdade, a sua crítica ao determinismo, quando este presume poder explicar a vida da consciência. Na realidade, se os objetos não levam a marca do tempo transcorrido, ou seja, se eles existem externamente ao outro em um tempo espacializado, então a determinação de um acontecimento posterior por meio de um acontecimento anterior diferente dele, torna-se possível. Então os primeiros acontecimentos idênticos, ou seja, as causas, elas explicam os posteriores, ou seja, aqueles acontecimentos que são idênticos, efeitos. Então não é assim que funciona, o positivismo, a ciência positivista? Ou seja, se relacionar uma causa e um efeito? Mas, o que é possível e útil no âmbito dos objetos espacializados é impossível para a consciência. Nem sempre você pode ligar uma causa a um efeito. A consciência, ela conserva traços do próprio passado. Nela nunca há dois acontecimentos idênticos, por isso é impossível a determinação de acontecimentos idênticos sucessivos. A vida da consciência não é divisível em estados distintos e o eu, é uma unidade em devir e onde não há nada de idêntico, não há nada de previsível. Tanto deterministas quanto os que defendem a doutrina do livre arbítrio segundo Bergson, eles vão estar errados. Por quê? Porque eles vão aplicar à consciência as categorias que são típicas do que, ao contrário, é externo a consciência. Então eles vão querer aplicar as mesmas categorias. Então ele fala: não, na consciência você não pode aplicar as mesmas categorias, você tem que separar. Os deterministas, buscam as causas determinantes da ação e eles acabam não percebendo que o único motivo profundo é a consciência toda com sua história. Da mesma forma se comportam os que sustentam o livre arbítrio que estabelece a causa da liberdade na vontade. Substancialmente, todos eles pressupõem a ideia de uma consciência como uma soma de atos distintos, mas, segundo Bergson o eu é uma unidade em devir, nós somos livres quando nossos atos emanam de toda nossa personalidade, quando a expresso. Então você não tem como categorizar dessa forma, dessa maneira. Então essa distinção é muito importante para a gente compreender a especificidade da consciência para Bergson. E necessariamente também os avanços que nós vamos ter posteriormente a isso. Inclusive atualmente com a neurociência e daí por diante.


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