PREPARE SUA MUDANÇA SEM SABER PARA ONDE VAI SE MUDAR
- 5 de jun. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2022
Por Paul B. Preciado
Trad. Rafael Leopoldo e Leo Gonçalves.
Não produza nada. Mude de sexo. Torne-se mestre do seu professor. Seja aluno de seu aluno. Seja amante do seu chefe. Tudo que caminha em duas patas é inimigo. Cuide da sua enfermeira. Entre na prisão e reproduza a cena central da Revolução dos bichos. Vire assistente da sua secretária. Limpe a casa da sua faxineira. Prepare um cocktail para o barman. Feche a clínica. Chore e ria. Negue a religião que lhe foi dada. Dance sobre a tumba do seu cemitério secreto. Mude de nome. Troque de ancestrais. Não tente agradar. Não compre nada que tenha se transformado em ícone numa tela ou em qualquer outro suporte visual. Enterre a escultura de Apolo. Não procure agradar. Prepare as mudanças sem saber para onde se mudar. Abandone seus filhos. Pare de trabalhar. Entre em um campo de refugiados e reproduza a cena central da Revolução dos bichos. Prostitua seu pai. Ultrapasse uma fronteira. Exuma o corpo de Diógenes. Feche sua conta no facebook. Não sorria no momento da foto. Feche sua conta no Google. Entre em um museu e reproduza a cena central da Revolução dos bichos. Abandone o seu marido por uma mulher dez anos mais jovem. Tudo que caminha em quatro patas e tudo o que tem asas é amigo. Solicite o fechamento da sua conta bancária. Raspe a cabeça. Não busque sucesso. Abandone o seu marido por um cachorro. Redija uma resposta automática para seu e-mail: “Ao longo de 2017 e até segunda ordem, entre em contato por escrito para a caixa postal 0700465”. Doe todas as suas roupas e comece um curso de corte e costura. Destrua a pasta Dropbox do seu computador. Prepare uma mala vazia e vá embora. Ultrapasse uma fronteira. Não faça nenhuma obra nova. Abandone a sua mulher por um cavalo. Abra a sua mala numa rua qualquer e aceite aquilo que os outros te derem. Aprenda grego. Entre em um abatedouro e reproduza a cena central da Revolução dos bichos. Pendure uma flor na sua barba. Dê os seus sapatos mais bonitos. Mude de sexo. Nenhum animal usaria uma roupa que não fosse confeccionada por ele mesmo. Deite-se no chão do seu escritório e mexa seus pés como se dançasse no teto. Saia e não volte. Abandone a sua mulher por um álamo. Não analise nenhuma conjuntura. Expresse-se exclusivamente em línguas que você não conhece com pessoas que não conhece. Ultrapasse uma fronteira. Pare de votar. Não pague a sua dívida. Queime seu título de eleitor. Nenhum animal matará outro animal. Destrua o seu cartão de crédito. Valorize o que os outros consideram inútil. Admire o que os demais consideram feio. Busque ser invisível. Tente não ser representado. Nenhum animal dormirá em uma cama construída industrialmente. Mude o objeto da sua libido. Descentralize o prazer genital. Goze com aquilo que ultrapassa os limites do seu corpo. Deixe que Gaia te penetre. Renuncie à farmacologia. Troque ansiolíticos com o passado. Teça. Não construa nenhuma casa. Não acumule. Não coma outros animais. Não incentive o desenvolvimento humano. Não segmente. Não aumente os benefícios. Não melhore. Não invista. Entre num hospital psiquiátrico e reproduza a cena central da Revolução dos bichos. Não coordene as ações. Revire o lixo. Não pague o seguro. Não escreva a história. Não organize sua jornada de trabalho. Reduza o seu nível de rendimento, consciente e inconscientemente. Nenhum animal beberá vodca Absolut. Não baixe vídeos do youtube. Se ainda não o fez, não se reproduza. Não se modernize. Não utilize a comunicação de maneira estratégica. Não preveja o futuro. Tente fazer o mínimo possível durando o máximo de tempo. Entre em um asilo de velhos e reproduza a cena central da Revolução dos bichos. Não preste contas. Admire o saber que os outros não chamam de conhecimento. Não digitalize nada. Não deixe pista. Envie uma mensagem aos seus inimigos: “Parei. Feliz ano novo”. Não aumente a infraestrutura logística. Escolha antes a vida que a prolongação científica da esperança de vida. Todos os animais são iguais.



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