A CUMPLICIDADE E A NATUREZA COMUM DOS ENCONTROS
- 24 de mar. de 2021
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Atualizado: 9 de nov. de 2022
Trecho da aula ministrada pelo filósofo Luiz Fuganti durante o curso de Formação em Esquizoanálise pela Escola Nômade de Filosofia em 2020. Neste trecho, Fuganti discorre sobre a relação entre a cumplicidade que temos com aquilo que nos afeta e o conceito de comum.
Pergunta: A cumplicidade, a gente pode dizer, de uma certa forma, que é natural, porque quase todos nós, em algum momento, têm esta cumplicidade e a gente associa aos interesses, por mais bobos que sejam, em algum momento a gente esqueceu de pensar no geral e pensou em função de interesse pessoal. Acho que o que mais leva a esta cumplicidade são os interesses pessoais. Esta cumplicidade, de uma certa forma, é produzida. Como que pode, fora do campo educacional, evitar que essa cumplicidade faça parte do nosso comportamento geral?
Luiz Fuganti: É necessário você apreender o conceito de comum radicalmente, o comum do público, público não é comum, distinguir radicalmente comum do universal, comum não é universal, distinguir radicalmente o comum do ideal, do legal, do dever-ser ou da norma, o comum não é normativo. Essas distinções são essenciais. Há uma comunidade em primeiro lugar, é daí que pode vir, ou não, a cumplicidade. Eu poderia dizer que sempre há cumplicidade, a cumplicidade é necessária, mas existe a cumplicidade com a potência e existe uma cumplicidade na impotência. Nosso problema crítico é a cumplicidade na impotência, de onde ela vem? Espinosa diz que não há mal que nos atinja sem que haja algo de comum entre nós e esse algo que produz mal em nós. Como assim? O mal não nos atinge se não tiver algo de comum? O comum jamais nos nega, ou seja, o comum jamais nos faz mal. Eu diria então que há algo de comum entre mim e essa realidade que me afeta e produz um mal. Há algo de comum, mas não é por aquilo que tem de comum que eu sofro desse mal, muito ao contrário, o comum é necessariamente afirmativo, o comum não é neutro. O universal se pretende neutro, o Sérgio Moro se pretende neutro, o juiz se pretende neutro, o psicanalista se pretende neutro, o comum não é neutro, o comum é afirmativo, portanto, o comum é desejante, não é o Eu que deseja, o comum já é desejante, o comum é uma zona de passagem impessoal, mas não é genérico, nem ideal, nem formal, nem legal, nem pública, nem estatal, muito menos privada, ele é a condição sem o qual não há mistura, não há encontro. Nós só nos encontramos, como diz Espinosa, num plano comum de encontros, em qualquer realidade nossa há um plano comum de encontros, apreender a natureza comum desse plano é essencial. O comum vai liberar uma razão de composição entre as potências, razão de composição e não princípio de organização. A razão de composição é uma maneira de se relacionar com outra maneira de se relacionar onde há uma composição de potências, uma relação de potência com outra relação de potência, sem um terceiro que autorize, que legitime, sem deus, sem juiz, sem o padre, sem testemunha, é uma relação transversal direta, imediata de potência com potência, força com força, da abelha com a orquídea do vegetal com o animal, do animal com o mineral, do animal com o animal de uma espécie com outra espécie, até do vírus, com o humano, que produz mutação genética. Então, a composição é algo de outra ordem, há uma razão de composição, Espinosa vai chamar de Noção Comum.
Na realidade, há uma dificuldade na gente em perceber essa cumplicidade, diferente da culpa. De onde vem essa cumplicidade? Vem de um elemento comum, eu tenho que entender o quê é o comum, eu tenho que viver o comum, não só entender. Se eu entendo, do nosso ponto de vista, [esquizoanalítico] não existe entendimento separado da vivência e da prática. Quando eu falo “eu estou pensando o comum”, é porque eu estou experimentando o comum. Não tem essa “ah, eu estou aqui na teoria, sou muito teórico, muito erudito, muito genial, ninguém vai entender porque isso só o pensamento muito genial vai entender”, e a vida não entende? Como assim? Isso é uma prática, isso não precisa de instrução, isso não é escola, o ensino fundamental um, fundamental dois, ensino médio ou a universidade que ensina, isso não vai aprender na faculdade de filosofia, isso você tem que praticar, tem que ter um gosto. Como é que a gente desperta isso? A gente contagia com a nossa própria vida, a gente já tem que viver de modo alegre e suficiente, contente no nosso modo de existir, não se dizer “olha, veja, mirem-se no exemplo de vida que eu sou”, você tem que ter gosto por acontecer, ter gosto pela existência. Esquece se o outro vai te seguir ou não, você também é uma potência de afetar, então afeta!, então contagia, e as pessoas que estão embotadas e não se deixam afetar e contagiar, é problema seu? Não sei, você precisa muito do outro? Que outro? Eu não preciso de ninguém que esteja morto, morto-vivo, dormindo, diz Nietzsche, guardai-vos de despertar os mortos ou bem-aventurados os que têm sono, porque em breve adormecerão. Nós não estamos aqui para ser pastor de rebanho, como ele mesmo diz, mas sim, ladrões de ovelha. “Vamos formar o rebanho coletivo e fazer a revolução e construir o Estado ideal”, vamos deixar de ser infantil, a nossa vida é aqui agora e aqui e agora você tem a condição de ser pleno, de se preencher plenamente, muito ao contrário da idealização, isso é o oposto do ideal porque se você idealizasse jamais você se preencheria. Aí diz-se “então você é um contente, você se contenta fácil com qualquer coisa porque você está sempre muito pleno”. É a maneira como você acontece, está presente no acontecimento, isso é uma conquista. O quê se apresenta em nós? É o nosso Eu? Não!, corra! Eu vou para a Índia para me encontrar, e chego lá e encontro Eu mesmo de novo. Que horror! Eu quero fugir desse Eu, entende? Não quero mais esse Eu para mim, esse Eu é o que deve ser destruído com alegria, a alegria da destruição. Isso é o oposto do fascismo, da violência, do totalitarismo, muito ao contrário, isso é a libertação das forças alegres, lúdicas que não precisam oprimir, que não precisam cobiçar, se apropriar, reprimir, violar, estuprar, é o oposto, quanto mais potente, mais generoso você se torna. E você vai ficar dependendo do outro? “Óh, quando o outro vai se libertar para eu me libertar também?” A gente vai ficar nessa choraminga até quando? Choramingando, choramingando, choramingando no passional reinvidicativo. É claro que a maioria vai continuar dormindo, é claro que esta sociedade tem o destino dela e é claro que nós estamos existindo aqui e agora. Então eu vou esperar o futuro da revolução? Vou esperar que o outro se libere? O outro nem quer, o outro não quer! Eu digo “porra cara você está se enganando” e [ele diz] “não, essa é a melhor via”, então vai, vai indo que eu não vou!, e está tudo bem, não quero te convencer, entendeu? Só não me perturbe, se você me perturbar, eu vou fazer um bom uso da sua perturbação, eu vou aproveitar. Se eu encontrar um tirano eu vou até ficar contente porque vou me pôr à prova. Vou ficar reclamando que sou vítima, que eu sofri bullying? A gente é muito mimimi de fato, a gente é sempre a vitimização, a vitimização, vamos colocar as condições ideais, os direitos, os direitos, os direitos para nos proteger, para nos salvar do quê? Quem disse que o direito salva a nossa vida, a nossa estupidez, a nossa mediocridade? Direito nenhum nos salva, a gente tem que se tornar sensível, isso sim, sensível às forças do presente, as forças que se apresentam no nosso corpo. Que força tem no nosso corpo? Estamos vivos? Ou é só o reativo que se apresenta em nós? É só a vontade de comer, de beber, de dormir, de trepar, de gozar e de escoar o nosso desejo para se aliviar, para suportar melhor a nossa miséria existencial? É isso que a gente quer? Está tudo bem, você não vai para o inferno, mas também você tem a vida que você tem, e está tudo certo, porque tudo isso também é uma provocação, a gente é provocado assim.



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